Vertigem mandou um beijo no topo dos 629m

Quando tava passeando nos arredores do metrô Bellas Artes, descobri uma das entradas para o cerro. Subi as primeiras escadas, umas ladeiras e tava achando tudo muito charmoso até que dei de cara com degraus tortos de pedra acompanhados por um corrimão inútil. Isso quando acompanhado. Eu tenho medo de altura e vertigem. Quando dei por mim, já tava um pouco alto e desci de volta que nem uma velhinha medrosa.

Essa era uma das melhores escadas, mas a verdade é que existem vários caminhos até o topo. Na primeira vez, escolhi o pior.

A entrada oficial do Cerro Santa Lucía é na Alameda (Av. Libertador Bernardo O’Higgins) e chega até ali por onde eu entrei, no barrio Lastarria. Tem várias pracinhas, monumentos, jardins bem cuidados e fontes. Muito frequentado por turistas e casais. Dizendo o guia do Chile que meu pai comprou, há também os “pensadores solitários”, mas desse exemplar eu não vi nenhum. Vale a pena conhecer, mas não voltaria lá para passar uma tarde, por exemplo. Santiago tem lugares mais agradáveis.

Só consegui chegar ao topo com o apoio psicológico do meu primeiro amigo chileno e profe de espanhol (oi, Fabian). Fiz um drama, fiquei um pouco tonta, mas consegui! Ainda fiquei um tempinho aproveitando a vista pra fazer valer a pena o esforço. Voltei lá também esse feriado com meu pai e minha irmã, mas não demos sorte e o topo (que é um círculo minúsculo) estava cheio de gente e não deu para tirar foto espaçosa como essa.

Depois de ir lá três vezes, descobri que foi no cerro que Pedro de Valvidia fundou Santiago em 1541. Tenho aula de história do Chile, mas a partir de 1700, hehe.

 

Uma das razões que me fizeram comprar o ingresso com menos de uma semana de antecedência foi a Feist. Sinceramente não sei de onde tirei que ela cantaria no festival. Só me toquei que ela não estava na programação no sábado, já no Parque O`Higgins (duas estações de metrô da minha casa).

A primeira imagem que eu tive do Lolla foi uma feira de ciências ao ar livre. Stands sobre diversas organizações (Greenpace ou uma que defendia o uso medicinal da maconha). Senti muita pena das pessoas que ficaram plantadas naqueles quiosques que não chamavam a atenção de ninguém.

Sim, a comida era cara. Mas se considerarmos que paguei uns 16 reais por um combo de cachorro-quente no Planeta Terra, pagar doze reais por uma pizza (magrinha, mas deliciosa) era de boa. Tinha muita opção, até quiosque de sorvete artesanal.

As pessoas não pareciam se importar com a não-venda de álcool, mas acho que se importariam até demais se não pudessem entrar com câmeras. Não consigo entender porque levantam suas compactas ou outras melhorzinhas para registrar o show. Como se as fotos não fossem ficar tortas, tremidas e com cabeças na frente do vocalista. É difícil de entender porque tem gente que prefere assistir ao show através do visor. Quando a banda toca os primeiros acordes e vejo todas aquelas máquinas digitais na minha frente, sinto uma agonia enorme.

Três palcos do Lolla. O Parque O'Higgins ainda tava vazio, mas tinha muita gente andando de lá pra cá

O discurso ecológico era balela. Tínhamos que andar bastante para encontrar um simples lixeiro e, quando finalmente chegávamos ao mais próximo, era só para vidro (ou lata ou plástico). Por isso tinha muito lixo no chão ou no recipiente errado. Na hora de comprar uma bebida, o atendente colocava o conteúdo no copo porque a garrafa deveria ir para reciclagem. Nada como gerar mais lixo.

O grande esquema de reciclagem durante o festival era esse: voluntários recolhiam os copos que éramos quase obrigados a jogar no chão num grande saco plástico, materiais que seriam encaminhados para reciclagem após o evento. De fato, nada era feito no festival. Isso só servia para que os voluntários ganhassem almoço e entrada gratuita ao Lolla no dia que trabalhassem.

Fui sozinha, mas encontrei no sábado uma colombiana-que-vive-em-Santiago que havia conhecido numa festa da república de uma amiga francesa. No domingo, não nos achamos porque os celulares não tinham sinal. Acabei topando com um pessoal de engenharia da Usach que havia conhecido numa festa da universidade e que estudam com outra amiga francesa. Não fiquei tão forever alone.

Final do show do MGMT: tinha que escolher entre foco e enquadramento

Os melhores shows para mim foram o imaginário da Feist, MGMT (fiquei pertíssimo do palco até tocarem Kids, às 19h22, e pulei tanto nessa música que desidratei e quase perdi minhas pernas), Foster the People e, sei lá, o grupo chileno Los Jaivas (apesar de ter tirado uma soneca esperta na grama). Foo Fighters teria sido muito massa se não fosse o som baixo. Tudo bem que eu estava muito longe, mas a minha voz era mais alta que a do Dave Grohl! E as 60 ou 100 mil pessoas já eram esperadas. O Parque O`Higgins também sempre foi aberto, perfeito para o som se dissipar. Mas não existe solução para esse problema? Nem para a atração principal? Isso também contribuiu pro show do Arctic Monkeys, no sábado, ser miado (isso e o público “fome”).

No final das contas, vi muitos gringos, senti falta de outras manifestações artísticas e descobri que um festival grande nada mais é do que muita gente andando de um lado para outro. Também conheci um outro nível de banheiro químico: com papel higiênico, pia, torneira com água, sabonete e espelho!

O Parque Forestal é uma praça razoavelmente grande em frente ao Museo de Bellas Artes. Atravessei o parque para tomar os dois piores sorvetes da minha vida (chá verde com manga e framboesa menta, sendo que por um deles eu esperei numa fila de trinta minutos) antes e depois de visitar o museu.

Não dá pra entender a relevância desse ítem porque Santiago têm muitas praças com as mesmas árvores, bancos desconfortáveis e casais deitados na grama. Nada contra. Esses lugares são ótimos e as pessoas realmente os aproveitam. Parques sempre estão cheios de gente e, aos domingos, há atividades para as crianças. Sinto que os santiaguinos gostam de estar na rua, de aproveitar o sol do outono e tudo o que a cidade oferece. Muito diferente de Floripa, uma cidade fantasma no final de semana, e São Luís, onde todo mundo gosta de ficar preso em seus carros e shoppings com ar-condicionado.

Esse foi o imperdible mais fácil da lista. Quando eu cheguei a Santiago no dia 8, saí pra comprar lençol/travesseiro/toalha e peguei o primeiro metrô para ir até o shopping (ou mall, como dizem por aqui). Poderia ter ido caminhando, mas nem eu e nem o gerente do residencial botamos fé no meu senso de direção.

O centro da cidade é cortado latinudinalmente por uma avenida conhecida por Alameda e digamos que a línea 1 do metrô segue essa avenida. Vai ser o caminho que vou fazer quando as aulas começarem na Usach, porque caminhando dá mais ou menos meia-hora. Seria menos tempo se o prédio de jornalismo não ficasse afastado da reitoria, da escola de humanidades, de tudo. É outro aquário. De acordo com os guias que apresentaram o campus aos intercambistas, cursos de humanas foram fechados durante a ditadura militar (por isso hoje a universidade é tão forte em engenharia) e, quando reabriram na década de 90, ficaram em prédios separados.

Mas o importante é que estou enamorada del metro. Para quem sofria com as ruas apertadas de Floripa e o itinerário infinito dos ônibus “volta ao morro”, fazer qualquer trajeto em poucos minutos e sem balançar tanto já é uma maravilha. Claro que já peguei o metrô lotado e fiquei de cara com a porta, mas quem é obrigada a pegar um UFSC-semidireto às 18h, ainda vai achar o metrô mais vazio. O único lado ruim é que olhar pelas janelas não é algo muito interessante e também não posso ler no trajeto.


Essa grade em forma de sol retrata Matilde, a amante e depois esposa de Neruda, descabelada pelo vento. Outras traziam as iniciais dos dois unidas (P e M), puro amor.

Era domingo e eu tinha pouco dinheiro (o Banco do Brasil fica em uma comuna um tanto longe aqui do centro de Santiago e morro de preguiça de ir até lá), só me restava visitar algum museu. E por que não a casa de Pablo Neruda em Santiago?

La Chascona fica no barrio Bella Vista, no pé do cerro San Cristóbal. Quem vai de metrô passa pelo rio Mapocho, que nesse final de verão/começo de outono tem tanta água quanto um córrego da UFSC (e parece ainda mais sujo). No caminho, também visitei o Patio Bella Vista, um quarteirão de restaurantes e tiendas basicamente para os turistas.

O museu é um pouco caro (acho que a entrada custou 3500 pesos), mas as visitas são guiadas e dá para conhecer melhor a intimidade do segundo Nobel de Literatura do Chile. Chascona, que em espanhol quer dizer despenteada, é uma referência à amante de Neruda (Matilde Urrutia) da década de 50. Depois eles acabaram se casando e essa se tornou a casa oficial do poeta em Santiago.

A casa era cortada por um canal (provavelmente a informação sobre o que aconteceu com ele foi uma das muitas que eu perdi por não entender tudo o que o guia dizia) e alguns cômodos lembram o interior de navios. Há inclusive janelas de barcos que Neruda trouxe de Valparaíso, uma cidade litorânea aqui perto. Quadros, esculturas africanas, bonecas russas e todos os objetos de decoração parecem ter uma razão para estar li e mostram como o escritor era um personagem interessante. Dá miuita vontade de viver um dos jantares em que ele reunia os amigos e beber algo num dos três (!) bares de la Chascona. É um lugar inspirador.

Não sou muito de poesia e li 100 sonetos de amor um tanto contrariada, mas agora estou lendo Pablo Neruda Esencial. Resolvi começar pela prosa para ver se me dou melhor com o autor e por enquanto as memórias de sua infância são muito interessantes: “No hay nada más invasivo para um corazón de quince años que una navegación por un río ancho y desconocido, entre riberas montañosas, en el camino del misterioso mar.”

Neruda faleceu em 23 de setembro de 1973, pouco depois do golpe militar no Chile, e foi velado em la Chascona. Os doze dias que o poeta viveu a ditadura foram suficientes para a casa ser invadida e saqueada. Provavelmente foi nesse período que se perderam muitos dos livros que não estão na biblioteca.

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