O que uma matéria do Diário de Pernambuco e um livro de uma professora e historiadora maranhense têm em comum? A melhor reportagem do mundo foi publicada no caderno Aurora de 20 de fevereiro (também odeio ler em formato revistinha, mas vale a pena) e trata do ufanismo, da fanfarronice e megalomania pernambucana. Porque, afinal, o estado recebe vários elogios de ser o único, o melhor, o maior e o primeiro. Vale destacar esses trechos:
“Ufanismo tem uma função social superimportante de autoafirmação e de construção da identidade. Quem está embaixo quer ir para cima. E no discurso só se consegue isso levantando seu moral e dizendo que tudo o que você faz é maior ou melhor. É quando você diz, por exemplo, que a música de Chico Science é a melhor do mundo.”
“Fanfarronice é quando a gente diz que o Recife é o lugar onde rios Capibaribe e Beberibe se juntam pra formar o Oceano Atlântico. Essa é uma ideia sofismática, que tem uma base lógica. Mas é uma lógica que é feita para causar uma resposta que não é verdadeira. É uma mentira.”
“Megalomania é quando você quer ser maior do que é. O cara faz acreditando que é verdadeiro. É quando alguém diz que a Avenida Caxangá é a maior em linha reta do mundo. É algo patológico, que a gente cria. É uma macaquice que a gente utiliza pra rir da gente mesmo.”
Essa reportagem me lembrou do livro A fundação francesa de São Luís e seus mitos, encontrado muito por acaso na melhor livraria da cidade (Leiamundo, no Jaracati Shopping). A gente comemora o aniversário da cidade em 8 de setembro de 1612 e se vangloria a única capital fundada por franceses. Mas a questão é: o que os franceses fizeram aqui? No dia da “fundação” foi apenas rezada uma missa em cerimônia da posse das terras. Além disso, não se sabe nem se os franceses tinham a intenção de construir a capital da França Equinocial aqui em São Luís. Nos dois anos que ficaram aqui, viviam em acampamentos. O próprio forte São Luís (que deu origem ao nome da cidade e hoje é o Palácio dos Leões, sede do governo) começou como uma estrutura improvisada que aproveitava os rochedos do local. A partir do estudo de documentos históricos e cartas, a professora Maria de Lourdes Lauande Lacroix (ufa!) mostra como os franceses passaram de invasores a fundadores da cidade na memória maranhense.
Ela aponta a crise econômica desde o final do século XIX como causadora de uma fuga orientada para a mitificação do passado: Tendo a perspectiva da “decadência” como matriz cultural e voltando-se para a definição dos traços da “singularidade” regional, as “elites decadentistas” construíram a imagem da capital evocando a Grécia clássica, pela utilização renovada do epíteto Atenas Brasileira, e a França moderna, através da mitologia da fundação.
Essa leitura me abriu os olhos pra maior contradição ludovicense: nos achamos pela fundação francesa e por nossos casarões portugueses com azulejos portugueses no nosso centro histórico traçado pelo português Jerônimo de Albuquerque, que expulsou os franceses daqui. Curioso que hoje Jerônimo de Albuquerque e o francês Daniel de La Touche, que liderou a invasão, se encontram num nos maiores cruzamentos por essas bandas da cidade. Nem o elevado da Cohama resolve mais o engarrafamento.
Também fiquei sabendo que por muito tempo o aniversário da cidade sequer era comemorado. A primeira festa grande foi a dos 350 anos. Depois disso, a data ficou esquecida por algum tempo, sendo relembrada pelos jornais de quando em quando. O aniversário só foi lembrado religiosamente a partir de 1984. Ano que vem a cidade completa 400 e já prometem um amistoso da seleção brasileira contra a França. Veremos.
A minha teoria é que procuraram qualquer evento no dia 8 de setembro buscando um feriado prolongado. Porque, olha, esse feriado junto da Independência é ótimo.
