Uma cozinha improvisada, cinco barracas de acampar e um colchão inflável de casal. Só isso mostra que a antiga sede do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFSC é a casa de estudantes que largaram o aluguel e de hippies que precisam de um lugar para ficar.
Aquela sala do Centro de Convivência, antes uma agência do BESC, foi lar de um coelho, expulso por fazer muita sujeira. Hoje só tem o Bóris de animal, “o único cachorro que te olha nos olhos” e companheiro do Fêr há seis anos. Fêr, um dos moradores da república, é um artesão e morador de rua que trabalhou numa fábrica de espadas na Argentina. Agora ele vende bijouterias feitas a partir de talheres na Praça do Pida. É de lá que o Fêr conhece os mendigos da região e os autodenominados Desokupados, alunos que saíram da ocupação da reitoria no dia 29 de agosto direto para o Centro de Convivência. Como não concordam com a atual gestão do DCE e nem com qualquer forma de representação política, não há um líder. O grupo trabalha para revitalizar o prédio, em reforma há mais de dois anos, e promove atividades culturais como cineclubes, oficinas de dança afro ou ensaios de instrumentos musicais.
Enquanto escutava alguém treinando trombone, Fêr confeccionava uma pulseira de garfo. Logo os outros desocupados voltaram do jantar no Restaurante Universitário. Alguns fugiam de aulas, como o estudante de Serviço Social que deveria estar numa visita domiciliar no Monte Cristo. Eles contavam as novidades da ocupação. Cígor agrediu o novo namorado da ex-mulher e acabou preso. Luís foi expulso porque não cumpria a regra essencial da casa, a de respeitar os outros moradores. Ele se drogava demais, fazia muito barulho e quebrou uma porta do prédio. Disseram que ele “parecia o diabo” na manhã anterior, quando mastigou pedaços de uma garrafa de vidro.
Uma placa pendurada no teto informava a outra regra da ocupação: nada de fumaça lá dentro. Fumar tabaco só no segundo andar. Maconha pode quando anoitece. Por isso chegavam universitários com rostos de calouros perguntando se Léo, artesão que também trabalha nos arredores da universidade, tinha um baseado.
Depois que as luzes foram acesas, Gabriel e Guilherme acordaram e saíram das respectivas barracas. Os irmãos, um da Antropologia e outro que não estuda, largaram o aluguel muito caro para morar ali de graça. A mãe deles está em Portugal, não conhece a UFSC e nem ficou preocupada com a nova casa dos filhos. Eles gostam do clima da ocupação, uma “aula de antropologia estudantil”. Lá entra quem quer, dorme quem quer, como o também aluno de Antropologia Renan. Ele mora com o pai, mas passa algumas noites no antigo BESC com preguiça de sair do norte da Ilha e chegar à UFSC para a aula das 8h20.
Os Desokupados falam que não têm problemas com limpeza, apenas com barulhos. A música e conversa podem ir fácil até quatro da manhã. Numa noite de quinta-feira, eles se revezavam colocando a música que queriam num notebook aparentemente sem dono. O rapper Criolo, cantorias nordestinas e a banda Ponto de Equilíbrio fizeram parte da trilha sonora. Léo, hippie que vende bijouterias no Pida, jogava xadrez num tabuleiro quebrado com o estudante de Serviço Social e interrompeu a partida para contar que o ritmo mais popular da casa é o reggae.
Um apanhador de sonhos gigante, as paredes grafitadas e o pote multiplicador de dinheiro substituem televisão, paredes lisas e uma cozinha bem equipada das outras repúblicas da comunidade universitária.
