Ser míope não é ter um defeito, é ter possibilidades.
Me descobri cega quando os pincéis vermelhos e verdes quase não apareciam no quadro branco da escola. Eu tinha onze anos. Tentei usar lente num episódio fracassado que envolveu um colírio levemente anestésico e meu hábito de piscar mais que os nova-iorquinos. Hoje me revezo entre óculos de aro grosso e a cegueira crônica.
Porque ser míope é poder escolher entre 1) usar óculos e escutar tudo o que os outros falam, reconhecer amigos na rua e ler placas 2) sair cegueta e não precisar cumprimentar todo mundo, se concentrar no texto da disciplina X durante a aula Y e acreditar que ninguém está reparando em ti, já que tu não enxergas ninguém. E, o melhor, dançar do jeito que quiser na balada, porque tu estás ali sozinha com seus amigos e uns estranhos que insistem em ficar num raio de três metros.
Possibilita ainda a emoção de esquecer os óculos no dia que o professor marcou de exibir um filme (e sentar o mais perto possível da tela de projeção), cancelar o plano de ir ao cinema depois do expediente (sofrido porque você passou o dia com os olhos colados no computador) e pedir emprestados os óculos do seu amigo para assistir a uma peça inadiável.
No mais, andar sem óculos ainda é unidade de medida que mostra se você conhece uma cidade. Fiquei orgulhosa quando consegui pegar o primeiro ônibus para a UFSC cegueta. Com o tempo, você também aprende a reconhecer teus amigos de alguma maneira subjetiva como o estilo da roupa e o jeito que o cabelo parece ser.
Apesar de tropeçar, sentir incômodo com dois óculos nos filmes 3D e pegar ônibus errados (mesmo que isso não seja uma conseqüência da falta de visão), a pior parte é sobreviver aos abraços usando a armação linda e querida que tu demoraste um mês para escolher. Eu gosto de abraços, todo mundo gosta. Mas, se ao me cumprimentar, tu quiser me abraçar com vontade, avisa. Que eu fico cega e te abraço de verdade. Também te dou três beijinhos, se quiser. Mas, por favor, não entorta meus óculos.

