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O cerro é San Cristóbal, mas a estátua é da Virgen María (santuario de Inmaculada Concepción). E nada como melhorar a paisagem com uma antena de televisão, né?

O Cerro San Cristóbal é quase nosso Morro da Cruz, de Floripa. Sendo o segundo ponto mais alto da cidade, podemos vê-lo de vários pontos da cidade. E quem sabe eu até poderia vê-lo do terraço da minha casa agora caso a capa permanente de poluição de Santiago não existisse (vale registrar que eu ainda não vi a cordilheira depois que voltei da Argentina por causa da “smog”). O cerro faz parte do Parque Metropolitano de Santiago, que tem piscina, zoológico, ambulantes que vendem uns macaquinhos de pelúcia muito bonitinhos e etc.

Cumpri esse imperdible no sábado do feriado da páscoa, no mesmo dia que comi o mariscal com papai e minha irmã. Fomos no finalzinho da tarde porque já tinha colocado a família para caminhar pelo centro inteiro e subir as escadas do Cerro Santa Lucía. Por isso acabamos vendo o anoitecer lá de cima e foi maravilhoso. Naquela época, o pôr-do-sol era pelas 20h porque ainda estávamos no horário de verão.

A subida é num funicular no estilo do que sobe o Corcovado, só que sem segurança nenhuma e, aparentemente, mais antigo:

Momento vamos tirar uma foto para não pensar que se esse funicular cair, todo mundo morre. E essa é minha irmã Jaana Joaquina.

Demos uma voltinha pelo cumbre do cerro bem rápido porque estávamos com medo de perder o último funicular para descer (não sabíamos ainda a fila infinita que se formaria), mas nem tem muito o que ver ali em cima. Só o tal santuário da Virgen María, quioscos, natureza, uma espécia de anfiteatro e muitos lugares tranquilos para largatear. A 828m, Santiago é uma maquete de estudante de arquitetura. Quero voltar lá para fazer um programa mais tranquilo.

E aí chegou a hora do mote con huesillo:

¿Parezco rico?

Já tinha experimentado o mote timidamente com uns amigos chilenos, que realmente gostam disso. A bebida é um jugo acaramelado com pedaços de pêssego desidratado (huesillos) e grão de trigo fervido e sem casca (mote). É muito comum ver carrinhos que vendem mote con huesillos pela cidade, mas não tanto quanto as sopaipillas atômicas (uma massa frita que é inacreditável de tão amarela). Peguei essa colher com toda minha boa vontade e…

Não gostei. Tem um gosto de chá mate bizarro, é gelado, o grão de trigo não tem nada que ver e esse pêssego me incomoda. Para compensar a minha decepção (papai e Jaana gostaram), o anoitecer visto de camarote, com direito à lua subindo por trás da cordilheira:

O sol foi baixando…

… a cordilheira foi ficando vermelha…

… e, de repente, a lua-holofote.

Entramos no Mercado, desviamos da área dos peixes inundada por uma água nojenta e sentamos numa mesa do onipresente Donde Augusto. O garçom trouxe o cardápio e eu, decidida, pedi esse tal mariscal. Estava com meu pai e minha irmã, que me visitaram no feriado da páscoa.

Depois de observarmos nossos vizinhos de mesa que comiam a famosa centolla (caranguejo) gigante [a chica custa 200 reais e já é enorme], chegou nosso mariscal:

Vale destacar que eu não gosto de mariscos aleatórios e não precisa pensar muito para descobrir o que vai nesse prato junto com algumas verduras. Com essa cara nada convidativa e um leve cheiro de limão, experimentei e tem gosto de… água suja do Pacífico.

Para quem acha que eu sou fresca, meu pai e minha irmã que adoram marisco e comem até pedra lá em São Luís também não gostaram e não conseguimos comer nem 1/4 desse pratinho.

Depois conversei sobre isso com as chilenas que moram comigo e elas falaram que esse Mercado Central é lixo, o pior lugar para comer os pratos típicos daqui. Principalmente no Donde Augusto, que é recomendado em guias. Resta a esperança que em lugares menos turísticos esse mariscal seja melhor, mas eu é que não me atrevo a experimentar de novo. Eca.

Aleatoriedades sobre Santiago

1. Quando o sinal está vermelho para os carros, eles não podem seguir em frente, mas podem virar à direita. Ou seja, mesmo que o semáforo esteja verde para os pedestres, você pode ser surpreendida por autos e quase morrer atropelada como eu, quando não sabia disso. O lado bom é que eles costumam esperar as pessoas atravessarem.

2. Há cachorros por todos os lugares. No parque, supermercado, no metrô, dentro de mochilas. Só o aeroporto possui uma placa de “proibido cães”. Os perros de rua são enormes,  folgados (dormem na frente de portas, por exemplo) e alguns parecem ser de raça. Também adoram se meter em confusão entre si, é comum ver um princípio de briga. O curioso é que na Usach há menos cães do que no resto da cidade.

3. Não faz diferença se você veste um short minúsculo ou a calça jeans mais folgada com camiseta, se sair sozinha vai ouvir muitos assobios, irritantes sons de beijo e olhadas descaradas. Do tipo passei do lado do cara que tava varrendo a rua e ele virou descaradamente para acompanhar o trajeto da minha bunda. Não imaginava que tinha como ser pior do que as buzinadas dos motoboys da Trindade, mas tem.

Exemplar de santiaguino descansa na Alameda

4. O atendimento é péssimo nas lojas, nos restaurantes, nos bares, em todo lugar. Tenha paciência para esperar o garçom voltar depois de 10 minutos para dizer que não tem a cerveja que você pediu. Com o tempo, você pega a manha de fazer o pedido assim que sentar (mesmo que seu amigo esteja atrasado, ele vai chegar antes da comida). O lado bom é que eles são simpáticos com quem fala portunhol.

5. Preciso fazer uma camiseta que diga “get a room!”. Os casais, principalmente adolescentes, são… digamos… carinhosos demais. Beijam-se com vontade deitados na grama (um em cima do outro), no metrô, sentados no chão do shopping. Já presenciei gente beijando com olho aberto (no metrô, enquanto reparava nas pessoas), língua pra fora lambendo outra língua e casais enganchados. Muita vergonha alheia.

Extras: “¿Cachay?” significa “entende?” e é uma das palavras mais palavras mais faladas pelos chilenos, logo depois de “huevón”. “Huevón” (se fala weon) quer dizer “tonto” e os amigos usam para se xingar amavelmente, mas também pode ser um palavrão.

Vertigem mandou um beijo no topo dos 629m

Quando tava passeando nos arredores do metrô Bellas Artes, descobri uma das entradas para o cerro. Subi as primeiras escadas, umas ladeiras e tava achando tudo muito charmoso até que dei de cara com degraus tortos de pedra acompanhados por um corrimão inútil. Isso quando acompanhado. Eu tenho medo de altura e vertigem. Quando dei por mim, já tava um pouco alto e desci de volta que nem uma velhinha medrosa.

Essa era uma das melhores escadas, mas a verdade é que existem vários caminhos até o topo. Na primeira vez, escolhi o pior.

A entrada oficial do Cerro Santa Lucía é na Alameda (Av. Libertador Bernardo O’Higgins) e chega até ali por onde eu entrei, no barrio Lastarria. Tem várias pracinhas, monumentos, jardins bem cuidados e fontes. Muito frequentado por turistas e casais. Dizendo o guia do Chile que meu pai comprou, há também os “pensadores solitários”, mas desse exemplar eu não vi nenhum. Vale a pena conhecer, mas não voltaria lá para passar uma tarde, por exemplo. Santiago tem lugares mais agradáveis.

Só consegui chegar ao topo com o apoio psicológico do meu primeiro amigo chileno e profe de espanhol (oi, Fabian). Fiz um drama, fiquei um pouco tonta, mas consegui! Ainda fiquei um tempinho aproveitando a vista pra fazer valer a pena o esforço. Voltei lá também esse feriado com meu pai e minha irmã, mas não demos sorte e o topo (que é um círculo minúsculo) estava cheio de gente e não deu para tirar foto espaçosa como essa.

Depois de ir lá três vezes, descobri que foi no cerro que Pedro de Valvidia fundou Santiago em 1541. Tenho aula de história do Chile, mas a partir de 1700, hehe.

 

Uma das razões que me fizeram comprar o ingresso com menos de uma semana de antecedência foi a Feist. Sinceramente não sei de onde tirei que ela cantaria no festival. Só me toquei que ela não estava na programação no sábado, já no Parque O`Higgins (duas estações de metrô da minha casa).

A primeira imagem que eu tive do Lolla foi uma feira de ciências ao ar livre. Stands sobre diversas organizações (Greenpace ou uma que defendia o uso medicinal da maconha). Senti muita pena das pessoas que ficaram plantadas naqueles quiosques que não chamavam a atenção de ninguém.

Sim, a comida era cara. Mas se considerarmos que paguei uns 16 reais por um combo de cachorro-quente no Planeta Terra, pagar doze reais por uma pizza (magrinha, mas deliciosa) era de boa. Tinha muita opção, até quiosque de sorvete artesanal.

As pessoas não pareciam se importar com a não-venda de álcool, mas acho que se importariam até demais se não pudessem entrar com câmeras. Não consigo entender porque levantam suas compactas ou outras melhorzinhas para registrar o show. Como se as fotos não fossem ficar tortas, tremidas e com cabeças na frente do vocalista. É difícil de entender porque tem gente que prefere assistir ao show através do visor. Quando a banda toca os primeiros acordes e vejo todas aquelas máquinas digitais na minha frente, sinto uma agonia enorme.

Três palcos do Lolla. O Parque O'Higgins ainda tava vazio, mas tinha muita gente andando de lá pra cá

O discurso ecológico era balela. Tínhamos que andar bastante para encontrar um simples lixeiro e, quando finalmente chegávamos ao mais próximo, era só para vidro (ou lata ou plástico). Por isso tinha muito lixo no chão ou no recipiente errado. Na hora de comprar uma bebida, o atendente colocava o conteúdo no copo porque a garrafa deveria ir para reciclagem. Nada como gerar mais lixo.

O grande esquema de reciclagem durante o festival era esse: voluntários recolhiam os copos que éramos quase obrigados a jogar no chão num grande saco plástico, materiais que seriam encaminhados para reciclagem após o evento. De fato, nada era feito no festival. Isso só servia para que os voluntários ganhassem almoço e entrada gratuita ao Lolla no dia que trabalhassem.

Fui sozinha, mas encontrei no sábado uma colombiana-que-vive-em-Santiago que havia conhecido numa festa da república de uma amiga francesa. No domingo, não nos achamos porque os celulares não tinham sinal. Acabei topando com um pessoal de engenharia da Usach que havia conhecido numa festa da universidade e que estudam com outra amiga francesa. Não fiquei tão forever alone.

Final do show do MGMT: tinha que escolher entre foco e enquadramento

Os melhores shows para mim foram o imaginário da Feist, MGMT (fiquei pertíssimo do palco até tocarem Kids, às 19h22, e pulei tanto nessa música que desidratei e quase perdi minhas pernas), Foster the People e, sei lá, o grupo chileno Los Jaivas (apesar de ter tirado uma soneca esperta na grama). Foo Fighters teria sido muito massa se não fosse o som baixo. Tudo bem que eu estava muito longe, mas a minha voz era mais alta que a do Dave Grohl! E as 60 ou 100 mil pessoas já eram esperadas. O Parque O`Higgins também sempre foi aberto, perfeito para o som se dissipar. Mas não existe solução para esse problema? Nem para a atração principal? Isso também contribuiu pro show do Arctic Monkeys, no sábado, ser miado (isso e o público “fome”).

No final das contas, vi muitos gringos, senti falta de outras manifestações artísticas e descobri que um festival grande nada mais é do que muita gente andando de um lado para outro. Também conheci um outro nível de banheiro químico: com papel higiênico, pia, torneira com água, sabonete e espelho!

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