O ideal do crítico é uma antologia de textos de Machado de Assis publicados em jornais entre 1858 e 1878 sobre análises literárias, os lançamentos da época e literatura brasileira. É um livreto básico, organizado por Miguel Sanches Neto, que ajuda a pensar em crítica cultural apesar de ser bastante datado. Machado vê na análise uma maneira de apontar o caminho que os escritores deveriam seguir para escrever melhor a partir de seus defeitos. A crítica seria uma forma de chegar a uma “grande literatura nacional”. Revelo o ideal do crítico para vocês:
“Saber a matéria em que fala, procurar o espírito de um livro, descarná-lo, aprofundá-lo, até encontrar-lhe a alma, indagar constantemente as leis do belo, tudo isso com a mão na consciência e a convicção nos lábios, adotar uma regra definida, a fim de não cair na contradição, ser franco sem aspereza, independente sem injustiça, tarefa nobre é essa que mais de um talento podia desempenhar, se se quisesse aplicar exclusivamente a ela. No meu entender é mesmo uma obrigação de todo aquele que se sentir com força de tentar a grande obra da análise se conscienciosa, solícita e verdadeira.”
Entre as críticas, prefiro a do livro O primo basílio, de Eça de Queiroz. Nela, Machado questiona se haveria história caso a criada Juliana não tivesse escondido as cartas que provavam o adultério de Luísa com um antigo amor. Percebi também nos outros textos que o autor do grandíssimo Dom Casmurro julga a verdade nos livros. E a métrica, quando critica poesias. Mas vamos voltar um pouco para minha xará:
“Cá fora, uma senhora que sucumbisse às hostilidades de pessoa de seu serviço, em consequência de cartas extraviadas, despertaria certamente grande interesse, e imensa curiosidade; e, ou a condenássemos, ou lhe perdoássemos, era sempre um caso digno de lástima. No livro é outra coisa. Para que Luísa me atraia e me prenda, é preciso que as tribulações que a afligem venham dela mesma; seja uma rebelde ou uma arrependida; mas, por Deus! dê-me a sua pessoa moral.”
Machado continua dizendo que o drama existe porque está nos personagens, não nos acessórios. No caso, o detalhe de Juliana ter achado as tais cartas. Nessa passagem, o autor cita a peça Otelo, de Shakespeare. O drama da história estaria na perfídia de Iago, na inocência de Desdêmona e na alma ciosa e ardente do próprio Otelo. O lenço de Desdêmona, que foi parar com Iago e se tornou indício da traição, é apenas acessório da obra. Seria isso uma dica para os leitores de Dom Casmurro que a dúvida do caso entre Capitu e Escobar é também acessório?
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